QUEM SÃO OS ‘ROBÔS ASSASSINOS’, QUE PERSONALIDADES DA TECNOLOGIA QUEREM PROIBIR?

Eles detectam e aniquilam inimigos em segundos, carregam quilos de equipamentos, executam ordens sem contestar e tomam decisões rápidas caso companheiros estejam sob fogo cerrado. Poderiam ser soldados perfeitos. Mas são robôs.

E mais de cem personalidades da tecnologia, como o bilionário Elon Musk, pediram à ONU: querem que esses tais “robôs assassinos” sejam proibidos.

Essas armas letais autônomas podem ser drones furtivos ou lançadores de míssel. Longe de serem ficção, já engrossam as fileiras militares de dezenas de países.

Elas não chegam a ter a simpatia de robôs do cinema, que ajudaram a criar a ideia do que são plataformas movidas à base de muita inteligência artificial.

Não são humanoides como o T-800, do “Exterminador do Futuro”, falantes como o R2D2, de “Star Wars”, ou capazes de ter autoconsciência como o Hal 9000, de “2011 – Uma Odisseia no Espaço”.

“Ao contrário de outras manifestações potenciais da AI, que estão na ficção científica, os sistemas de armas autônomas estão a ponto de se desenvolver e têm um potencial muito real para causar danos significativos a pessoas inocentes e criar uma instabilidade global”, afirmou o fundador da Clearpath Robotics, Ryan Gariepy, que iniciou o movimento.

Armas convencionais?

A ele se juntaram outros 126 criadores de empresas de robótica e de inteligência artificial. O grupo decidiu enviar a carta para marcar posição, após a ONU reagendar para novembro uma reunião que iria discutir o uso de Sistemas de Armas Letais Autônomas.

A intenção é que a tecnologia seja acrescentada à lista de armamento banido pela Convenção sobre Armas Convencionais (CCW) das Nações Unidas, ao lado de minas terrestres e armas incendiárias.

“O desenvolvimento de sistemas de armas autônomas letais é imprudente, antiético e deve ser banido em uma escala internacional”, disse Gariepy.

O signatário mais estrelado é Elon Musk, presidente da fabricante de veículos elétricos e autônomos Tesla. Ele sempre manifesta seu desconforto com as máquinas que pensam.

Fez isso em julho deste ano, durante o encontro da Associação Nacional dos Governadores dos EUA. “Eu fui exposto às inteligências artificiais de ponta e acho que as pessoas deveriam estar muito preocupadas com elas”, disse.

“Eu continuo soando o alarme, mas, você sabe, até que as pessoas vejam robôs nas ruas matando pessoas, elas não sabem como reagir. Porque isso parece muito etéreo”, diz Elon Musk.

O apanhado de personalidades não está falando de robôs com falhas passíveis de serem exploradas por hackers, como o NAO – sua fabricante, a Aldebaran Robotics, aliás, é uma das signatárias. O receito são as máquinas criadas deliberadamente para atacar.

Essas armas robóticas são capazes de iniciar “uma terceira revolução [na tecnologia] de guerra”, diz o grupo. Em tom alarmista, afirma na carta: “Estas podem ser armas de terror, que déspotas e terroristas usam contra populações inocentes, e armas que podem ser hackeadas para se comportarem de forma indesejada”.

“Uma vez desenvolvidas, elas permitirão um conflito armado numa escala maior do que nunca, e em intervalos de tempo mais rápidos que os humanos podem compreender”, diz o documento. “Uma vez a caixa de Pandora seja aberta, será difícil fechá-la.”

‘Robôs assassinos’: na terra

Só que muitas delas já rodam por aí e fazem parte do armamento de dezenas de países. Fabricado pela QinetiQ, o Maars (sigla para Sistema Modular Avançado Robótico Armado, em inglês) usa esteiras similares às de tanques para se deslocar. Com sensores, detecta onde está e se tiros são disparados em sua direção. Com câmeras térmicas, atua não só de dia, mas também à noite.

Caso tope com alguma ameaça, pode até recorrer a recursos não letais (sirenes, mensagens de ordem, raio laser desorientador na direção dos olhos), mas não esconde o lançador de granadas ou a metralhadora. Ainda que controlado por controle remoto, o robô de 167 kg pode funcionar de forma totalmente autônoma.

Robô Maars, da QinetiQ.  (Foto: Divulgação/QinetiQ)Robô Maars, da QinetiQ.  (Foto: Divulgação/QinetiQ)

Robô Maars, da QinetiQ. (Foto: Divulgação/QinetiQ)

Outro robozinho terrestre é o THeMIS, feito pela Milren com apoio do Ministério da Defesa da Estônia. Criado para fazer o reconhecimento de áreas perigosas para soldados, ele é multiuso.

Trabalhador, ele carrega cargas de até 750 kg, mas, se a situação esquentar, não banca o pacífico. Sua metralhadora pode disparar projéteis de 7,6 e 12,7 milímetros. Se a coisa ficar feia mesmo, pode até atirar granadas.

Controlado remotamente, possui um modo autônomo. Assim, consegue evitar obstáculos e seguir um veículo que for encarado como alvo.

THeMIS, robô da Milren. (Foto: Divulgação/Milren)THeMIS, robô da Milren. (Foto: Divulgação/Milren)

THeMIS, robô da Milren. (Foto: Divulgação/Milren)

‘Robôs assassinos’: no céu

Alguns “robôs assassinos” possuem asas e sabem voar. Drone mais avançado da General Atomics Aeronautical Systems, o MQ-9B é a evolução de uma aeronave chamada de Predador B.

Como não tem pilotos no cockpit, o MQ-9B possui sofisticados sistemas de radar e sensores que permitem identificar ameaças aéreas. A detecção é crucial para a sobrevivência, já que a aeronave não tem ferramentas de defesa. Os misseis teleguiados são reservados apenas para cumprir missões de ataque. Além disso, é empregado em reconhecimento.

Se o MQ-9B trilhar o caminho de seu antecessor, vai fazer sucesso. O Predador B foi comprado pelas forças aéreas dos EUA, Reino Unido, Itália, França, Espanha, Departamento de Segurança Interna e NASA.

MQ-9B, drone da General Atomics Aeronautical Systems. (Foto: Divulgação/General Atomics Aeronautical Systems)MQ-9B, drone da General Atomics Aeronautical Systems. (Foto: Divulgação/General Atomics Aeronautical Systems)

MQ-9B, drone da General Atomics Aeronautical Systems. (Foto: Divulgação/General Atomics Aeronautical Systems)

Já o drone da Northrop Grumman, o X-47B, é usado pelo Sistema de Combate Aéreo da Marinha dos EUA. Ainda em testes, já foi usado para abastecer outras aeronaves em pleno voo. Também possui sistemas para atuar em missões de reconhecimento e até em ataques.

X-47B, drone da Northrop Grumman. (Foto: Divulgação/Northrop Grumman)X-47B, drone da Northrop Grumman. (Foto: Divulgação/Northrop Grumman)

X-47B, drone da Northrop Grumman. (Foto: Divulgação/Northrop Grumman)

‘Robôs assassinos’: no mar

O Phalanx, da Raytheon, é um trambolhão que faz a defesa de porta-aviões. Não chega a ser um modelo estético, mas é eficiente: seu sistema automático consegue procurar, detectar e avaliar se um objeto é uma ameaça. Se decidir que é, parte para o ataque pesado até exterminar o alvo.

Pode receber uma melhoria e ser equipado com uma bateria anti-aérea. Ela usa infravermelho para “enxergar” helicópteros e aviões no escuro antes mesmo de eles entrarem no radar. A Marinha dos EUA e outras 24 nações possuem um desses em suas fileiras.

Phalanx, sistema automático da Raytheon. (Foto: Divulgação/Raytheon)Phalanx, sistema automático da Raytheon. (Foto: Divulgação/Raytheon)

Phalanx, sistema automático da Raytheon. (Foto: Divulgação/Raytheon)

O que dizem as empresas

Contatadas pelo G1, as fabricantes dizem que a alcunha de “robôs assassinos” é exagerada.

“O Maars passa por extensivos testes de segurança e sempre mantém um humano no centro das operações para tomar qualquer decisão de disparar”, afirmou um porta-voz da QinetiQ. “O Maars pode ser equipado para executar grande variedade de missões, incluindo aquelas que necessitam de força letal.”

Para a Milren, “falar do THeMIS como um robô assassino é um pouco forçado”. “Nunca tivemos a intenção de desenvolver tal sistema de arma não tripulada, que é capaz de tomar decisões independentes para atirar contra algo ou alguém. O gatilho da arma sempre permanecerá nas mãos de um operador humano. A segurança e estabilidade do sistema são essenciais para a gente.”

A empresa da Estônia diz que o robô é só um acessório de segurança.

“Para ser claro, nós não queremos dar aos nossos sistemas de combate à habilidade de tomar a decisão de atirar. Nosso objetivo principal é proteger soldados do perigo e mantê-los a uma distância segura da área de crise.”

Northrop Grumman, General Atomics Aeronautical e a Raytheon não responderam o contato da reportagem.

Destruição em massa

Se um dia a ONU banir os “robôs assassinos”, os países membro da organização teriam de assinar um novo acordo da Convenção sobre Armas Convencionais. Assim, se comprometeriam a não produzir ou desenvolver equipamentos desse tipo.

A proibição do desenvolvimento das armas autônomas letais já tinha sido discutida por comitês da ONU. Em 2015, mais de mil especialistas de tecnologia, cientistas e pesquisadores escreveram uma carta alertando sobre os perigos das armas autônomas. Naquele ano, o rol de assinaturas continha nomes do porte do cientista Stephen Hawking e o cofundador da Apple Steve Wozniak.

“A inteligência artificial pode ajudar a enfrentar muitos dos problemas urgentes que a sociedade enfrenta hoje: a desigualdade e a pobreza, os desafios colocados pelas mudanças climáticas e a atual crise financeira global. No entanto, a mesma tecnologia também pode ser usada em armas autônomas para industrializar a guerra”, afirma Toby Walsh, professor de AI e organizador da carta de 2017.

“Armas autônomas serão armas de destruição em massa, com o que um programador pode matar milhares de pessoas ao mesmo tempo.”

Fonte: Exame

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